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contos eróticos

olhar – ep. 2

Precisamos lidar com certas verdades: não foi fácil realizar nossa fantasia. 

Quer dizer, na hora foi. Estávamos há meses brincando e fantasiando pessoas nos observando enquanto transávamos, e, de repente, fomos tomados pela energia das pessoas que se pegavam do outro lado da tela, em frente às câmeras: em uma suruba online! Na hora, foi fácil, porque, enquanto Pedro me penetrava, observava o sorriso da Rafa do outro lado da tela, se tocando também. Lembro de ter visto vários sorrisos dela ao longo dos anos em que somos amigas, mas nunca em um contexto assim, e por isso tinha me marcado tanto. Trocamos de roupa na frente uma da outra também por diversas vezes, mas nunca encarei seu corpo com tesão, com vontade de tocar, sentir seu cheiro, assistir suas curvas se moverem em reação aos meus toques. Na hora, é fácil deixar o desejo tomar conta. E depois?

Eu e Pedro não conversamos sobre aquela noite. Tentamos fazer parecer uma coisa normal e corriqueira, da qual não é necessário sequer conversar. Depois, começaram a surgir alguns pequenos ciúmes, ora da minha parte, ora da parte dele. Entendi que precisávamos conversar sobre nós dois, sobre o que houve e a natureza da nossa relação, afinal, havíamos cruzado o limite da monogamia tradicional (não que eu me importasse muito com ela, mas era algo difícil de ignorar). Então, algumas DRs e conversas depois, deixamos claro um para o outro o quanto nos amávamos e nos respeitávamos, e, dito isto, falaríamos sempre a verdade, conversaríamos sobre ciúmes pra não deixar esse mal fermentar, não mentiríamos um para o outro, e que sairíamos com outras pessoas e nos permitiríamos realizar mais vezes nossas fantasias. Afinal, se tinha uma coisa que havíamos aprendido nos últimos tempos, era que a vida é um sopro – e que precisávamos nos permitir.

Minha relação com Rafa permaneceu a mesma, acho até que tínhamos ficado mais próximas. Havia ficado bastante insegura na semana da festa quando trocamos mensagens comentando sobre isso, e ela voltou a nos elogiar. Acompanhou todo nosso processo de abrir o relacionamento bem de perto, ouvindo minhas angústias, e, com o passar das semanas, não sei dizer em que momento exato, começamos a trocar elogios com mais frequência. Tínhamos o hábito de trocar fotos de roupas novas que comprávamos pedindo opinião, e eu demorei um pouco para entender que aqueles elogios tinham se tornado flertes, até o dia que mostrei a ela a foto de um vestido preto colado que tinha comprado pra usar um dia à noite, e ela, por mensagem, me respondeu: 

— Ficou lindo, e… se eu te encontrasse com ele, teria vontade de tirar!

Lembrei daquele sorriso que ela deu nos encarando pela câmera. Será que sorria assim enquanto me mandava essa mensagem? E, sem pensar muito, respondi de volta:

— Então vou usar ele pra você de propósito quando a gente puder se ver de novo!

Naquele pico de coragem, eu não esperava que aquele encontro aconteceria presencialmente, tão em breve. Com o passar dos dias, me peguei pensando nela em vários momentos, inclusive enquanto me tocava. Revisitei na memória cada uma das histórias que ela me contava sobre suas transas, até os detalhes sórdidos – aqueles que você não pede pra saber, mas te contam mesmo assim. Mesmo os pequenos detalhes, agora, me diziam muito sobre ela, e eu suspirava de tesão acumulado, juntando o quebra-cabeças que tinha na memória sobre seu corpo, seus desejos, como gostava de gozar e o que fazia suas pernas tremerem. Em seguida, já muito molhada, me tocava. Não comentei nada com Pedro porque não vi necessidade, e, afinal, o combinado era contar se rolasse alguma coisa de fato. Parte de mim, àquela altura, ainda achava que ela não correspondia e era coisa da minha cabeça, mas isso estava prestes a mudar.

 

***

 

Com a volta ao trabalho presencial, Pedro também voltou a fazer algumas viagens pela empresa. Em um desses dias à noite, estava encerrando meu trabalho no computador e abrindo a primeira cerveja quando a campainha tocou. Pelo olho mágico, eu reconheci a cabeleira loira encaracolada: era Rafa. Respirei fundo, me ajeitei rapidamente e abri a porta. Mesmo de máscara, dava pra ver que ela sorria:

— Amiiiiiga, desculpa fazer uma visita surpresa assim, mas estava passando por aqui e, como você disse que já tinha voltado a encontrar as pessoas, queria te ver.

Se fosse outra pessoa, eu talvez ficasse chateada, mas não com ela, não depois daquele tempo todo. E logo agora que eu estava sozinha em casa até o dia seguinte? Então, ela entrou, abri outra cerveja e nos sentamos na sala; ela, no tapete à minha frente, e eu, no sofá. Ela me contou do emprego novo, do namoro que começou e acabou em meio à quarentena e que acabou saindo com um casal da festa online (e se eu comentasse isso com Pedro?). Conversamos animadamente enquanto bebíamos, dançamos uma música ou outra, e, lá pelas tantas, os flertes começaram: 

— Nossa, quer dizer que Pedro só chega amanhã e estamos sozinhas aqui? Cadê aquele vestido que eu gostei? — disse ela, rindo e me lançando uma piscadinha, mas retribuí de volta muito séria:

— Quer que eu use ele pra você ver? Olha que eu lembro o que você disse aquele dia…

Então, em um surto de coragem, me levantei e fui trocar de roupa. Pelo corredor, a senti me seguindo até a porta do quarto, quando me tocou os ombros e me virou contra a parede. Enquanto me encarava, respiramos fundo por uns instantes, de maneira que senti seus peitos colados junto aos meus, por entre nossos decotes. 

— Tem certeza? Não quero te prejudicar.

— Eu te quero, depois a gente resolve.

Ela quem me pegou contra a parede, mas eu que a senti se derreter em meus braços, em meio àquele beijo tão imaginado. Beijei seu pescoço e fui descendo até a alça do vestido, que obedeceu ao seu arrepio e caiu por sobre os ombros. O resto ela mesma terminou de tirar impaciente, e, em seguida, começou a repetir o mesmo comigo, dessa vez pressionando sua coxa contra a minha e me fazendo dar pequenas reboladinhas pra aumentar a tensão que já estava crescendo ali. Eu estava encharcada! Queria lambê-la toda, e, pelo visto, era isso que ela queria fazer comigo também. Puxei-a pela mão até a cama, acendi o abajur e recomeçamos os beijos, dessa vez mais devagar. À meia-luz, eu vi o formato de seu corpo, a sombra da calcinha que eu puxava pra cima, tentando com que ela se esfregasse em seu clitóris só pra provocar. Estávamos de lado, e ela rolou pra cima de mim, sentando em minhas coxas enquanto nos beijávamos. E, por cima da calcinha mesmo, ela começou a rebolar, esfregando a vulva molhada num movimento de vai e vem.

Enquanto rebolava, eu forçava o quadril pra cima, tentando rebolar também, quando, depois dos primeiros gemidos, me encarou, deitou em cima de mim e começou a descer com a boca, passando pelos meus peitos… Barriga… Até minha vulva. Eu me arrepiei inteira acompanhando esse percurso, e mal conseguia respirar. Com uma das mãos, segurei seus cabelos pra trás, e, deitada no meio das minhas pernas, ela começou a me beijar. Primeiro, sua língua percorreu minhas coxas e lábios como se estivesse mapeando meus arrepios e gemidos. Em seguida, beijou tudo que pôde com fome, mas com calma, se deliciando e me fazendo derreter inteira em sua boca. Depois de me fazer rebolar bastante naquele vai e vem de língua e arrepios, ela me contornou com a ponta dos dedos, espalhando melhor o mel que escorria de mim, e me penetrou. 

Respirei fundo e forte quando senti seus dedos dentro de mim. 

Não sei quanto tempo fiquei assim. Sabe quando você entra em um êxtase e tudo parece suspenso?

Escutei sua voz embargada ao longe, atrapalhada pelos movimentos que fazia, metendo forte:

— Goza na minha mão!

E, como se obedecesse, em seguida gozei. 

Por entre as pernas trêmulas, enxerguei seu sorriso.

Aquele mesmo riso safado, que vi a primeira vez na noite da festa online, também me assistindo gozar. 

As ondas de relaxamento que percorriam em mim se misturaram com a sensação do seu corpo subindo contra o meu, se deitando em meu peito. E, assim, adormecemos, cansadas das cervejas que tomamos e da correria do dia que tinha terminado.

 

***

 

Quando despertei, demorei pra abrir os olhos. Eu tinha sonhado aquilo ou era verdade? Pela janela, entravam as primeiras luzes do dia. Em meu estômago, corria agora uma ressaca com misto de culpa. Repeti pra mim algumas vezes que estava tudo bem e fui tomar um banho. “Vai que melhora?”, foi o que pensei. Deixei-a dormindo e tentei não fazer barulho. Enquanto a água escorria pelo meu corpo, me lembrava da noite anterior e de como tinha sido incrível viver aquilo, até que meus pensamentos foram interrompidos por um pedido atrás da porta semiaberta:

— Ei, tudo bem com você? Posso entrar?

“Tudo bem, aproveita”, pensei comigo mais uma vez. E falei que estava tudo bem sim, daquela vez em voz alta. 

Deixei com que ela entrasse não só no banheiro, mas no banho comigo. Em um silêncio cúmplice, nos beijamos enquanto a água morna percorria nossos corpos abraçados. Deslizava a mão pelo seu corpo e ela, pelo meu, à medida que a gente se ensaboava, intensificando a sensação de nossos corpos colados, roçando peitos, barrigas e vulvas – porque, entre duas mulheres, o prazer é plural. E, assim, o deslizar de nossos corpos nos levava como numa intuição, para onde mais sentíamos prazer. Dessa vez com ela contra a parede, nos encaixamos e ficamos nos apertando por entre as coxas, rebolando nossas vulvas por onde desse. A água morna e o vapor do banho se misturam com nossos fluidos, e tive a sensação de que estávamos ambas mergulhadas em um único rio. Com uma das mãos, me agarrei às suas costas e, com a outra, busquei sua buceta, penetrando-a com meus dedos. Como esperado, ela estava encharcada, e comecei a fazer um movimento de vai e vem como se estivesse chamando seu prazer pra desaguar todo ali – mas parei quando seus gemidos começam a se intensificar.

— Tenho uma ideia melhor.

Desliguei o chuveiro, nos secamos de qualquer jeito, e a puxei de volta pra cama. 

— Sabe aquele último vibrador que comprei? Vamo testar?

Ela me dá um selinho e ri.

— Achei que não fosse me convidar pra usar ele com você.

Voltamos a nos beijar por um instante, e, enquanto ela foi pra cozinha buscar água, eu abri a gaveta e peguei tudo que precisava. De volta ao quarto, ela comeu algumas uvas enquanto me assistiu ajeitar os travesseiros e rearrumar a cama. Colocou as frutas em minha boca como quem alimenta a uma deusa, e me assistiu mover os lábios até se aproximar e me beijar de volta. Então, se afastou, se deitando na cama com a cabeça apoiada nas almofadas que arrumei. Percebendo-a atenta a meus movimentos, eu fui deixando clara minha intenção:

— Acho que você viu o que queria ontem, né? Agora é minha vez. 

Comecei beijando seus pés e fui subindo sem pressa por todo o corpo, reconhecendo o território. Intercalei os beijos em pequenas lambidinhas, já imaginando seu gosto. Por um instante, me veio à cabeça todo o repertório que construí a seu respeito, baseado nas tantas histórias de fodas que me contava, e percebi que, naquele momento, isso não me adiantava de nada: cada caminho que se percorre pelo corpo de uma mulher é único (e quem dera todo mundo pensasse assim). Quando me aproximei dos seus peitos, me demorei, sugando devagar os bicos e sentindo, com a ponta da minha língua, eles enrijecerem, lhe causando arrepios. Subindo devagar por seu pescoço, cheguei ao ouvido e disse baixinho:

— Quero assistir você gozar na minha mão como fez comigo ontem. Será que consigo?

— Você ainda tem dúvida de algum efeito que pode causar em mim?

Me ajeitei entre suas pernas e chupei tudo que pude, percorrendo a língua por sua vulva, procurando o clitóris e o lambendo primeiro bem suave, até sentir, sobre meus ombros, suas pernas dando pequenas tremidinhas involuntárias. Beijei como se beijasse sua boca, com a mesma vontade que tive reprimida por tantas vezes ao longo daqueles anos. Ela gemia e segurava minha cabeça com força, como se quisesse prender minha boca à sua vulva pra sempre. Quando me desvencilhei, peguei o vibrador e coloquei uma camisinha nele, molhando-o mais ainda com um lubrificante pra deslizar em cada cantinho que eu lhe pudesse arrancar prazer. Assim que o liguei e aproximei de seu corpo, ela soltou um gemido, como se já soubesse o que a esperava, aí resolvi maltratar: deixei que ela sentisse a vibração em lugares aleatórios antes de chegar ao clitóris, e ela se contorcia, tentando encontrar uma posição melhor.

— Você… tá m… me torturando, é? – disse, com a voz embargada pelo tesão.

Então eu ri e o encaixei exatamente onde ela queria, lhe gerando gemidos ainda mais altos. Deslizei o vibro devagar pela sua vulva, espalhando todo o fluido que saía dali: parte da minha saliva, parte do mel que fiz escorrer. À medida que as vibrações intercalavam, ela me buscava, me puxando pelos cabelos e fazendo com que eu deitasse em sua barriga enquanto continuava os movimentos. Depois, me sentei em uma das suas pernas e, de frente, comecei a rebolar, me esfregando em sua coxa, enquanto ela se contorcia com a vibração. Outra vez vi o tempo se suspender entre seus gemidos, fluidos e urros de prazer, e, quando mudei pra uma vibração mais forte, suas pernas começaram a tremer ainda mais. Meus olhos alternavam entre seu rosto e sua vulva, aberta e pulsando, quando, depois de tensionar ainda mais o corpo, ela soltou um gemido alto e aliviado. Permaneci com o vibro parado ali até que percebesse seus movimentos cessarem, e, enquanto isso, continuei a rebolar em sua coxa no mesmo ritmo que os espasmos de seu corpo. 

Sim, consegui fazê-la gozar. E muito, o lençol encharcado debaixo de nós denunciava.

Deixei o vibrador de lado e, então, fui eu quem deslizei o corpo sobre o seu, buscando me deitar no seu peito pra descansar. Pairava no ar nosso cheiro de sexo, de banho e suor, tudo misturado. Com a cabeça em seu peito, deu pra ouvir o coração batendo forte e a respiração acelerada, tentando se acalmar. As luzes das primeiras horas da manhã ilustravam, naquele momento, uma calmaria, em meio à tempestade de desejos que tínhamos acabado de vivenciar. 

— Espero que fique tudo bem entre a gente… — sussurrou ela em meu ouvido. 

— Não tem por que não ficar.

Ainda era cedo pra conversarmos sobre o que tinha acontecido, eu preferia aproveitar mais um pouco daquela paz que só um desejo consumado dava. 

E, lado a lado, adormecemos outra vez, com a serenidade de quem estava vivendo um sonho bom. 

 

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