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contos eróticos

olhar – ep. 1

Por L. Kaíza (@afroditeanonima__).

Andamos todos muito entorpecidos pela rotina, é verdade. Ando sentindo tanta falta de pessoas que comecei a fantasiar com elas. Começou com uma só, sentada na poltrona ao lado da cama, um dia desses, enquanto chupava Pedro, meu marido. Eu estava ajoelhada enquanto ele segurava meus cabelos em um movimento de vai e vem bem molhado. Minha boca salivava quando eu chupava o pau dele, como se eu colocasse na boca de repente uma comida favorita – não deixava de ser também. Imaginei que alguém estivesse ali no quarto nos assistindo, acompanhando com o olhar nossos movimentos. Me encheu de tesão pensar que alguém pudesse me ver chupar daquele jeito e levar Pedro ao delírio, entre gemidos e espasmos, até gozar na minha boca. Queria me sentir observada, queria a sensação de ser vista, quase tocada com o olhar. Pensar nisso acendeu uma chama dentro de mim, e, quando terminamos e nos deitamos lado a lado, compartilhando ainda carícias e recuperando a respiração, ele perguntou:

— Nossa, você hoje tava intensa…

— Você que tava uma delícia, mas… me deu um tesão… Deixa pra lá.

— Não, me conta… O que te deu tesão?

Naquele momento, eu senti um frio na barriga, um misto de vergonha com o pudor batendo. Mas sempre fomos tão sinceros um com o outro que respirei fundo e contei:

— É que… eu imaginei alguém olhando a gente transar.

Estava deitada em seu peito, e, quando disse isso, ele se desvencilhou de mim. Prendi a respiração por uns segundos, com medo de sua reação, mas ele calmamente se ajeitou de um jeito que pudesse me encarar, e disse, rindo:

— E você gostou disso?

Eu fiquei louca, encharcada, extasiada. Entrei em um fluxo tão gostoso, que parecia que estava sonhando. Mas só respondi que:

— Sim, esse pensamento veio do nada, mas foi bem intenso.

— Sabia que também já pensei isso? Que alguém estivesse te olhando enquanto a gente transa? Acho que… a gente podia conversar mais sobre isso, e quem sabe tentar? Só sermos olhados ou olharmos não arrancaria pedaço. Vamos amadurecer a ideia.

Então, fui eu quem ri. Em momento nenhum esperava que uma fantasia solta assim pudesse ser conversada (ecos do meu antigo relacionamento, onde isso jamais seria cogitado e ainda me sentia envergonhada de dividir algo assim). Estávamos casados há seis anos e ambos já havíamos nos interessado por outras pessoas. Depois de algumas conversas um pouco cansativas no início, o combinado foi que não mentiríamos um para o outro, o resto a gente combinava à medida que fosse acontecendo. Nunca fui muito ciumenta, ele também não. A regra máxima era só a verdade, e assim foi com essa fantasia.

Dali em diante, passamos a fantasiar isso em voz alta. Nosso convidado (ou convidada) imaginário/a assistia tudo da poltrona ao lado da cama. Gostava especialmente de me imaginar sendo assistida na hora do oral. Enquanto sentia sua língua percorrer minha vulva buscando o clitóris, fechava os olhos e me deixava imaginar, sem medo. Se alguém estivesse ali nos assistindo, me veria contorcer inteira conforme sua língua explorava cada um dos meus cantinhos. Ouviria meus gemidos, observaria tudo que ele era capaz de fazer com meu corpo. Depois, veria sua barba suja do meu mel, escorrendo, sentiria o cheiro de gozo e suor, cheiro do nosso sexo tomando conta do quarto. E, quando a gente trocava de lugar e eu começava a chupá-lo, enquanto acariciava meu rosto à medida que eu me deleitava com aquele pau, parava por uns instantes com ele duro na minha frente, me virava de lado pro espelho de um jeito que pudesse me ver e falava: “Imagina alguém te vendo engolir fundo assim!”.

Um arrepio corria pelo meu corpo todo, e eu me encharcava pensando nesse espectador (ou espectadora) imaginário, e isso só foi crescendo. Quando me masturbava sozinha no quarto, imaginava não só uma, mas várias pessoas ao redor da cama, atentas aos meus movimentos de vai e vem no travesseiro. E, se Pedro estivesse por perto me acompanhando, começava a sussurrar no meu ouvido:

— Olha essa bunda… Que delícia você se esfregando assim. Vou deixar ele entrar, tá? Fecha os olhos, a gente tá aqui pra te ver gozar…

Nos habituamos a brincar com os espelhos imaginando como o (a) estranho (a) veria nossa imagem refletida. Quando me comia de quatro, puxava meu cabelo e me virava o rosto para nos encararmos por meio do reflexo. Olhávamos fundo nos olhos um do outro, enquanto ele me metia bem forte e eu me tocava. Ficava extasiada nos assistindo, era como se saísse do meu corpo e minha visão fosse para aquele terceiro, que nos encarava ora do espelho, ora da poltrona. E assim fomos seguindo os dias, sedentos por esses olhares que imaginávamos percorrendo nossos corpos nus, entrelaçados. A possibilidade disso se realizar na vida real ainda estava longe – assim eu imaginava.

 

***

 

Certa noite, fiquei na sala trabalhando até mais tarde. Sentada no sofá com o notebook no colo, abajur aceso à meia-luz, alternava a atenção da tela pras cortinas, que, mesmo semiabertas, dançavam com o vento que entrava pela sala. Só me lembrei que era uma noite de sábado porque recebi uma mensagem da Rafa, uma amiga que, em tempos normais, certamente estaria me perturbando pra sair.

— Tá acordada? Pedro tá com você? Tenho uma boa pra te mostrar que você vai cair de costas, mas precisa experimentar.

Liguei pra ela, que me explicou ter encontrado uma festa online em um grupo de swing. Em suas palavras, era mais pra “uma suruba online”, no qual casais e mulheres solteiras se exibiam e observavam uns aos outros com as câmeras ligadas.

“Exibir”

“Observar”

Essas palavras ecoaram na minha mente, me lembrando das tantas vezes que me imaginei em uma situação assim. Rafa estaria na festa também e certamente participaria. Ela era intensa, colecionava vibradores e sempre tinha uma putaria pra me contar de sua última saída. Por um momento, lembrei que, por algumas vezes, a gente quase se beijou, e eu sempre ficava nervosa quando a gente se abraçava e sentia os seus peitos colados aos meus… Enfim, sábado à noite de um ano bizarro daqueles, e eu era chamada pra uma suruba online. Não estava fazendo nada mesmo, Pedro tinha dormido no quarto assistindo série, então topei! Perguntei a ela sobre a segurança e se eu poderia entrar com um nome falso e mostrar só uma parte do corpo. O único detalhe obrigatório era que a câmera tinha que ficar ligada – afinal, era sobre ver e ser vista. Fechei a cortina da sala, coloquei um roupão de seda por cima da camisola que usava, peguei uma taça de vinho e entrei no aplicativo de vídeo. Na antessala virtual, escolhi o nome falso que usava quando ficava com um cara e não queria ser encontrada depois: Ágatha. As regras da festa apareceram escritas na tela, e, além do que Rafa me contou, também era expressamente proibido usar o celular na frente da câmera. Respirei fundo, ajeitei um ângulo da câmera, que aparecia só meu busto com os cabelos pro lado e o roupão fechado, e entrei na sala, meio nervosa, mas muito curiosa pra saber o que aconteceria ali.

 

***

 

A sensação era de estar em um filme futurista. 25 câmeras ao mesmo tempo mostravam na tela casais e mulheres de todos os corpos diferentes, cada um em sua festa particular. Alguns usavam máscara, outros deixavam o rosto à vista mesmo. Assim como eu, tinha quem preferisse deixar à mostra só uma parte do corpo, protegendo o rosto de aparecer na tela. Havia quem usasse lingeries de renda, camisolas, fantasias eróticas, vestidos. Os homens estavam em sua maioria de cueca e conversavam animadamente com suas companheiras, alguns dançando colados, outros deitados, acariciando o pau por cima da pouca roupa. Rafa estava deitada na cama, usando uma calcinha fio dental e sutiã, com uma máscara cobrindo parte do rosto e, no chat privado, ela me falou “divirta-se… sem moderação rs”. Aos poucos, fui ficando à vontade, à medida que a taça de vinho foi esvaziando, e, pelo visto, aquele era o sentimento geral. As roupas começaram a ser tiradas, os casais se acariciavam e Rafa dançava pra câmera, deslizando a taça de drink por entre os peitos e a barriga. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que ficava impossível acompanhar, eu estava em êxtase! Uma mulher molhou o próprio dedo na boca do parceiro e começou a se tocar, enquanto ele alternava os olhares da tela pra sua masturbação, também se tocando. Em outro quadrado de tela, uma calcinha era puxada pro lado durante uma chupada maravilhosa. Eles trocavam olhares enquanto ela acariciava seus cabelos e alternava o olhar entre o rosto do parceiro, enterrado em meio às suas pernas, e a tela do computador. Uma das solteiras se tocava com um vibrador, às vezes parando pra digitar alguma coisa, provavelmente em um dos chats privados. Uma das câmeras balançava junto com a cama do casal, que estava com a mulher de quatro, sendo penetrada e rindo, ora pra tela, ora pro parceiro. Não sei em que momento comecei a ficar molhada, nem com qual cena específica, mas entrei em um fluxo tão gostoso que comecei de leve a me tocar também, mesmo escondida da câmera. Meus olhos corriam a tela maravilhada por estar vendo pessoas reais, em suas salas e quartos de casa. Casais transando com cumplicidade e intimidade – dava pra sentir de onde eu estava. Era daquele ponto de vista que queria ser observada com Pedro, tinha um pouquinho da gente em cada um daqueles casais. De repente, um deles me chamou mais atenção: a mulher estava deitada, de vestido levantado, e o cara, que antes a estava penetrando, começou a beijar seus peitos. Em seguida, ele lambuzou os dedos com lubrificante e começou a tocá-la, deslizando de leve os dedos por sua vulva enquanto a encarava. Ela jogou os ombros pra trás, se agarrou ao travesseiro e, conforme o ritmo de seu toque foi aumentando, começou a tremer de leve a perna. De onde eu estava, também me tocava, maravilhada, desejando ser tocada daquele jeito. Estiquei a perna pra me ajeitar melhor e, quando comecei de novo, esbarrei na taça de vinho, que caiu da mesinha de centro, fazendo o maior barulho. Do quarto, Pedro me gritou:

— Amor, tudo bem aí?

A excitação de repente fez correr um frio na minha espinha, com um misto de vergonha. Saí do app, abaixei a tela do notebook e fui ao quarto com a sensação de que tinha sido descoberta. Ainda meio ofegante enquanto caminhava pelo corredor em direção à porta, comecei a me explicar:

— Tudo sim, esbarrei na taça e deixei cair. Rafa me chamou pra uma festa online, mas você não vai acreditar… Quer dizer, você quer que eu venha deitar contigo?

— Não, perdi o sono. Festa online, como assim?

— Então, é uma festa de adulto. Se eu te mostrar, você vai entender… Quer ver comigo?

— Festa de adulto convidada pela Rafa… Acho que já ouvi falar que tava rolando algo assim por aí. Mas tudo bem se a gente assistir da cama?

Respondi que sim e segurei a gargalhada, porque era exatamente onde queria estar. Ajeitei o notebook com a câmera, pegando só uma parte do corpo, expliquei a ele as regras e voltamos pra sala de vídeo. As várias telas saltaram aos olhos dele, que também começou a assistir maravilhado. A maioria dos casais continuava a se tocar entre fluidos e carícias, e, enquanto isso, fui alternando entre as cenas pra mostrar como funcionava. Ele se ajeitou na cama, chegando mais perto de mim, e posicionou a câmera de um jeito que mostrasse nós dois, ele de cueca e eu ainda de roupão. Enquanto olhávamos uma das mulheres cavalgando forte sobre o parceiro, ele começou a passar de leve a mão pelas minhas coxas, foi subindo devagar e desfez o laço que prendia minha roupa. A gente se encarou por uns segundos, e, quando voltamos o olhar pra tela, a ficha caiu: podemos ver e sermos vistos.

 

***

 

Ele terminou de tirar meu roupão devagar e a gente se beijou, num beijo molhado e cúmplice, de quem sabia o que estava fazendo. A alça da camisola escorregou de um jeito que um dos meus peitos ficasse de fora, e ele começou a beijá-lo. Em seguida, desceu com a boca e começou a me beijar também as coxas, lambendo tudo que podia, cada cantinho, por onde já sabia que ia me enlouquecer. Me agarrei ao travesseiro e comecei a nos assistir pela tela, ele de cueca, com a cara enterrada na minha buceta. Soltei o primeiro gemido de prazer ao perceber a mensagem que chegou no meu chat. Era a Rafa: “estou de olho em vocês”. Eu ri e me segurei forte contra ele, percebendo que minhas pernas já começavam a dar pequenos espasmos de prazer. Já tava toda derretida, entregue à sua boca, quando ele parou e ordenou:

— Fica um pouquinho mais na vontade.

Senti um leve desespero de ter o orgasmo adiado, mas ele veio por trás de mim. Nos encaixamos deitados de ladinho, de um jeito que desse pra ambos vermos a tela. Com uma das mãos, eu comecei a me tocar. Com a outra, ele alcançou o lubrificante, que estava na cabeceira da cama, lambuzou os dedos e começou a percorrer da minha vulva pros peitos, como quem mostrasse pra câmera que um caminho estava sendo traçado ali. Depois, colocou a camisinha, e eu comecei a rebolar de leve, sentindo seu pau duro, até começar a meter forte na minha buceta, levantando minha perna, de um jeito que dava pra ver direitinho na tela seu pau me penetrando. Outra mensagem da Rafa chegou: “vocês fodem gostoso, do jeitinho que eu imaginava”. Percebendo meu interesse no chat, ele sussurrou em meu ouvido:

— Sua amiga tá vendo a gente, né? Vamo mostrar pra ela como você goza gostoso.

Dizendo isso, começou a meter mais forte e ritmado enquanto eu gemia, deixando fluir do ventre e do peito todo o tesão que tava sentindo com aquela cena. E, sem pensar muito, obedeci. Com uma das mãos, comecei a me tocar ao mesmo tempo que ele metia. Com a ponta de um dos dedos, pressionei o clitóris, ritmada pela sua metida. Estava muito molhada! De lubrificante, da saliva que escorreu de sua barba me chupando, de mim mesma, do tesão que vazava em forma de fluido. E, encarando a tela, percebi, dentre as várias imagens de casais se pegando, que Rafa olhava do outro lado, vidrada, enquanto se tocava com o vibrador. Da ponta dos meus dedos e das metidas do Pedro na minha buceta, começaram a brotar mil arrepios, me correndo o corpo e lambendo tudo. As pernas tremeram, o peito apertou e gemi alto, entregue: gozei. E, ainda enquanto me contorcia, ele gozou também, naquele instante metendo mais devagar, me apertando e me mordendo o pescoço enquanto gemia. O cheiro do nosso sexo pairava no ar do quarto e nos enchia os pulmões, à medida que respirávamos ofegantes, extasiados com o que tínhamos acabado de fazer. Nos encaramos, ele se deitou em cima de mim, e, ainda sorrindo, trocamos um beijo apaixonado.

— Pronto, fomos vistos… E agora? Todo mundo viu como você é uma delícia gozando…

Dizendo isso, começou a me fazer cócegas e rolamos de lado, rindo ainda mais ofegantes. Do outro lado da tela, Rafa encarava a câmera de bruços na cama, com a mão no queixo – também sorrindo.

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