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contos eróticos

olhar – ep. 3

Respiro fundo e me sinto viva, como nunca me senti antes. 

 

Estou ótima, alerta, disponível para experimentar e ser feliz onde quer que eu possa. Hedonista que fala né? As cores das ruas, os olhares das pessoas… Tudo me desperta uma vontade de provar – e viver mais. E se estou ovulando então, meus sentidos se afloram. E foi em um desses dias, voltando da minha corrida pelo parque que conheci Lucas. Voltei pra casa mais cedo porque desabou uma chuva forte de primavera, dessas de lavar a alma. Vinha pela calçada me protegendo da chuva com um casaco, e quando ele me viu apresar o passo, esperou e segurou o portão para mim, me dando uma carona em seu guarda-chuva. A primeira coisa que me chamou atenção foi seu cheiro, que consegui sentir mesmo por debaixo da máscara. Ele usava um desses perfumes marcantes, mas de ótimo gosto, desses que você não esquece fácil, mesmo se quiser muito. Caminhamos até a portaria, agradeci, e enquanto recolhia o guarda-chuva, começamos a rir da situação:

– Como é mesmo aquela música do Tim maia? É primavera, vai chuva? – disse em tom de piada e cantarolando a letra errada e fora do ritmo. 

Eu que não resisto a uma piadinha sem graça, ri ainda mais em seguida. 

– É, acho que o Tim maia podia mandar a chuva embora sim, já tá demais.

Em seguida entramos no elevador e além do cheiro, pude reparar melhor em como ele era bonito: camisa xadrez, relógio no pulso (que tipo de gente se preocupa com isso hoje em dia?), óculos redondinho, cabelo bem cortado. Percebi que ele sorria porque os olhos sorriam junto, mesmo debaixo da máscara e das lentes embaçadas. Nos encaramos algumas vezes meio tímidos através do espelho do elevador e nos despedimos quando o andar dele chegou. 

Sentir atração por vizinho é um grande clichê, eu sei. Acontece que eu não lembro de ver um vizinho bonito assim em todo esse tempo morando aqui. E a essa altura, além da sede de vida e da permissão, também estava a fim de experimentar os clichês, cada um a sua maneira.

Nos esbarramos algumas vezes mais, dividindo o elevador entre compras e a companhia de visitas. Em todas elas, nos encaramos de alguma maneira, até o dia em que uma das minhas visitas mais atiradas, a Rafa, percebendo nossos olhares, puxou assunto, descobriu uns amigos comuns e anotou seu número. Admirei muito a cara de pau, ela era ótima nisso e eu já me beneficiei dessa coragem algumas vezes, agora não seria diferente. Na saída do elevador para meu apartamento, depois que ele já tinha descido em seu andar, ela foi logo me alertando:

– Se você não pegar, eu pego. 

Esse contato foi bom porque quebrou o gelo, e a partir daí começamos a nos falar com mais frequência, e a trocar mensagens inicialmente em tom de chacota, falando mal das pessoas um dia na reunião de condomínio. Depois assuntos clichês sobre dias de promoções nas lojas ao redor, clima, as músicas que ora ecoavam de cá, ora de lá, até que… Chegamos aos flertes:

“Primeira vez em semanas que te vejo sem máscara, você é bonita do jeito que imaginei.”

Do outro lado da tela fiquei meio incrédula, mas feliz, com o rumo que essa conversa estava tomando, e, retribuí:

“Também imaginei que você fosse bonito porque sorri com os olhos – acho fofo gente assim.”

Não demorou muito depois dessa mensagem pra surgir o primeiro convite, meio esfarrapado, na verdade. Uma de suas plantas estava morrendo e ele pediu ajuda para salva-la. Eu estava sozinha em casa na terça a tarde, então arrumei uma bolsa com meu kit de jardinagem e desci para seu apartamento. Fingi naturalidade quando ele abriu a porta ainda vestindo a camisa, e mais uma vez meu faro de mulher no cio denunciou que acabara de sair do banho. Depois de nos cumprimentarmos, ele me ofereceu uma cerveja e ensaiou um papinho furado, apresentando o apartamento. E quando estava me encaminhando para começar a operação salvamento de suas samambaias, ele me interrompeu:

– Eu e minhas plantas estamos felizes de você estar aqui. Elas porque vão ser salvas, eu porque posso ficar sozinho com você e fazer uma coisa que já queria há um tempo.

Então, com uma das mãos envolvendo minha cintura, ele me beijou. Estava sentada em um puff, e ele do meu lado, no chão mesmo. Me derreti inteira por esse beijo, que era desses bem lentos, onde você consegue sentir o carinho que o dançar das línguas faz. Enquanto retribuía seu toque em minha cintura com um carinho na nuca, lembrei das linhas e volumes que já tinha observado em seu corpo, num dia que nos encontramos na piscina do prédio. Então sem pensar muito, tirei a camisa recém-colocada, como quem dá um aviso: quero seu corpo. Mas antes que pudesse continuar, atendi ao pedido da minha consciência e o alertei:

– Olha, eu tenho um relacionamento aberto. Você é uma delicia e eu estou com vontade, mas… tem que ser casual. Tudo bem pra você?

Tive medo que esse aviso tivesse sido dado meio tarde, afinal já tinha dado confiança e me mostrado disponível nos flertes que tivemos por mensagens, então por um instante temi que ele fosse parar tudo. Então, contrariando minha expectativa e tirando os óculos ele respondeu:

– Só temos o agora, por mim tudo bem – e todo bobalhão fingindo bater uma continência tentando fazer graça, disse com voz de personagem – Modo casual ativado!

Não contive o riso dessa gracinha, sou mole pra essas coisas. Mas em seguida ele ficou sério, se ajeitou ajoelhando-se em minha frente de maneira que se encaixou entre minhas pernas e começou a passear pelo meu corpo com as mãos, por onde desse. Enquanto me beijava, com a ponta dos dedos tocou minhas costas e percebendo meu arrepio, em seguida me apertou contra seu peito, em um abraço parecendo tentar acalmar o tesão que provocara em mim. Quando veio pela cintura, ameaçando me tocar os peitos não resisti e respirei mais forte, sentindo a tensão do que estava para acontecer. Então com cuidado ele voltou para minhas costas, tateou a pele até abrir meu sutiã, mas, não o tirou: deixou a alça solta, livre para terminar de cair de acordo com meus movimentos e desejos. Estávamos entorpecidos em um beijo que dava pequenas pausas, mas continuava a acontecer mesmo quando nossas bocas se separavam para acariciarmos um ao outro. Ver de perto esse olhar que me flechou tantas vezes entre corredores e elevadores me dava um misto de frio na barriga e excitação: como quem acaba de provar um gosto que deseja há um tempo, depois de idealizar bastante. Acontece que na idealização era um clichê – já a realidade estava sendo linda demais e surpreendente que um flerte casual pudesse ter um toque tão gentil assim.

Com o ritmo dos nossos beijos aumentando, era natural que as roupas começassem a cair mais, e assim foi: impaciente, abri o botão de sua calça e com a ponta dos dedos senti sua ereção ao descer o zíper. Ele estava duríssimo, e enquanto beijava seu ombro, fiz o caminho contrário com as mãos, dessa vez dando uma pequena apertadinha em seu pau, e em seguida subindo com a ponta dos dedos pela cintura e pelas costas, até chegar à nuca e seguir de novo com o beijo na boca, segurando sua cabeça em uma tentativa de demonstrar controle. Em seguida ele repetiu meu movimento, desabotoou meu short e começou a tira-lo, me deixando de camiseta e calcinha. Voltou a me beijar e repetiu o abraço, dessa vez abaixando meu sutiã por baixo da camiseta mesmo, se enrolando um pouco, de maneira que também seria necessário tirá-la para completar o trajeto. Eu parei por um momento, o encarei e eu mesma terminei de tirar tudo enquanto ele me assistia ficar só de calcinha. Então se deitou em cima de mim e foi beijando o pescoço e descendo com a boca para meus peitos. Com a ponta da língua lambeu tudo o que pôde, repetindo o jeito que me beijava a boca, mas dessa vez terminando com uma sugadinha, enquanto de leve apertava o outro peito, como quem segurava algo muito valioso. Parece que ele adivinhou que esse movimento no peito me deixava louca, e não contive um gemido forte. 

– Seu gemido é uma delícia, posso pedir mais dele pra mim? Já volto…

Em seguida levantou e foi correndo no quarto, tropeçando na calça que tinha começado a tirar e me arrancando uma gargalhada, enquanto atrapalhado, começava a se desvencilhar das pernas do jeans, ficando só de cueca preta. A bunda dele preenchia toda a cueca box e era linda, não pude deixar de reparar. E ainda enquanto eu pensava nessa bunda, ele voltou trazendo os preservativos e deixando do nosso lado entre as almofadas e o puff em que estava deitada. Percebendo que eu olhava fixamente para seu pau duro, ele se aproximou devagar, parecendo sentir que estava sendo devorado mesmo de longe, com o peso do meu olhar sob sua ereção. Quando chegou mais perto, não fiz cerimonia: mantive certo suspense apenas percorrendo por cima de sua cueca com a ponta dos meus dedos, mas logo o coloquei pra fora, pronta pra lamber tudo. Eu já estava salivando de vontade quando ele se afastou e com pressa colocou a camisinha antes que eu pudesse chupa-lo. Assisti a cada um de seus movimentos ainda com mais vontade, e pude reparar melhor como seu pênis era lindo, antes de continuar a fazer o que eu queria: chupar ele todo. Com as duas mãos agarrei a bunda que fiquei admirando minutos antes, enquanto com a boca fui fazendo movimentos de vai e vem e pequenas torções com a língua. Ele é desses que geme enquanto pulsa, e apesar de estar ajoelhada, tinha a sensação de que ele estava completamente em minhas mãos, envolto no abraço mais safado do mundo, coordenado pelas mãos que apertavam sua bunda e pelo movimento de minha cabeça. Pude sentir a ponta de seus dedos escorrendo entre os meus cabelos, e quando parei um momento para encara-lo e respirar, ele veio em minha direção, me deitou e começou a me chupar. A primeira coisa que eu fiz foi agarrar uma das almofadas que estavam próximas, no primeiro sinal que sua boca estava se aproximando da minha vulva. Senti sua respiração se aproximando e percebendo os pequenos espasmos que minhas coxas davam, ele soprou, bem devagar, de maneira que seu hálito me causou um arrepio maravilhoso de expectativa: o melhor ainda estava por vir. 

Me beijou devagar, em um cumprimento carinhoso que antecede a intensidade, e se ajeitou entre minhas coxas de maneira que suas mãos ficaram livres para segurá-las. O que me restou foi me derreter inteira em sua boca, sentindo o carinho quente da língua que no início era gentil, depois ficou certeira e implacável, ao descobrir as maravilhas que fazia em meu cantinho esquerdo do clitóris. Sua cabeça, língua e mãos me segurando davam a impressão de que éramos uma só extensão de prazer, o que se confirmou quando comecei a empurrar o quadril em sua direção, louca pra gozar tudo em sua boca. Eu me tremia toda, e entregue, comecei a rebolar em sua língua – até explodir e sentir um orgasmo maravilhoso percorrendo todo o meu corpo. 

Os franceses não chamam o orgasmo de pequena morte por acaso: naquele instante eu morria de êxtase, para renascer de novo, agora em seus braços descansando do turbilhão que se passou por mim.

– Vamos dar uma pausa?

– Que bom que não precisei pedir – disse me aconchegando em seu peito, enquanto brincava com seus pelos.

Essas pausas depois de um momento de intensidade costumam ser constrangedoras em transas casuais, mas tudo com ele parecia diferente. Não é porque é casual que não pode existir afeto e cuidado. Sempre deixei isso claro com quem me relacionei, e mesmo no pouco contato que tivemos consegui perceber essa reciprocidade. Era o primeiro cara com quem me relacionava depois de abrir o relacionamento, e passada a euforia dessa primeira experiência, agora conversando pelados deitados lado a lado, as borboletas no estômago deram espaço para uma certa paz, aconchego e intimidade que mesmo nesse primeiro encontro com toques, carícias e gozo já conseguiu existir. 

Essa paz só foi interrompida por uma coisa: seu pau novamente em ereção, quando depois de um tempo relaxando, voltamos a nos beijar. Ao percorrer com as mãos seu corpo, estando deitada em seu peito, percebi os arrepios que brotavam na pele e com uma das mãos comecei a tocar seu pau, primeiro com a ponta dos dedos em toques sutis, depois, segurando-o inteiro, numa punheta que o fez começar a se contorcer.

– Agora sou eu quem quer ouvir mais dos seus gemidos. Posso sentar em você?

E tendo respondido que sim com um riso largo, fui me ajeitando enquanto ele trocava a camisinha. Senti os primeiros centímetros de seu pau entrarem em mim ainda o encarando. Sabe a sensação de você se sentir preenchida? 

Comecei rebolando bem devagar na intenção de provocar, mas também de reconhecer o território. Na medida em que me soltava e olhava ele nos olhos, me sentia a mulher mais poderosa do mundo com a expressão de prazer que brotava de sua cara. Os rebolados deram lugar a uma quicada mais forte e deliciosa, que transformou essa expressão agora em gemidos. Enquanto sentia o vai e vem dos meus peitos também quicando, reparei que ele também se agarrava com força em uma almofada próxima, e com uma das mãos comecei a tocar meu clitóris, me masturbando enquanto isso. Nem o cansaço que começava a tomar conta das minhas coxas era capaz de nos parar, e percebendo meu ritmo diminuir, ele me abraçou, me levando para junto de seu peito e começou a meter empurrando os quadris – até que o senti pulsar, em meio a um gemido mais forte que soltou como se respirasse agora aliviado: e gozou. 

Depois de nos desvencilharmos desse gozo, permanecemos deitados mais um tempo lado a lado no chão da sala contemplando o teto, tendo as almofadas como testemunhas do que fizemos um ao outro, no que era para ser uma tarde qualquer. 

As plantas ao redor nos assistiam ansiosas pelo momento que seriam tratadas, já que esse era o real motivo de eu estar ali. E entendendo o recado que as folhas secas e murchas me mandavam em tom de julgamento, me levantei para beber água e cumprir minha missão:

– Vamos salvar essas samambaias logo, ou você vai deixar mais alguma quase morrer pra ter a desculpa de me chamar de novo aqui?

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