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papo de prazer

vergonha e sexualidade

Ana Canosa em colaboração

ao #EuQueroGozar

08/03/2021 – 10:00

A vergonha é uma emoção moral. Uma reação autoconsciente diante da percepção de inadequação, falha, incompetência. Sentimos vergonha de situações significativas para nós e ela pode estar associada ao medo, à cólera, à culpa, ao nojo, ao desprezo. Ela nos coloca em posição de vulnerabilidade, pois como um juiz moral avisa que podemos ser avaliados e perder a admiração e o amor das outras pessoas. A palavra vulnerabilidade vem de vulnus – poder ser machucado. 

Desde crianças, quando começamos a ter consciência moral das ações intencionais, a vergonha serve também como adaptação ao meio-ambiente e controle de nossas atitudes em sociedade. Esperamos de nossos familiares e cuidadores o olhar de aprovação e desaprovação, como um guia que alimenta nossas autoestima. Quanto mais vergonha de pensamentos e ações, mais estamos arriscados a viver em função do olhar do outro, com medo do julgamento. 

A interdição e os mistérios da sexualidade, ao longo da história da humanidade fizeram dela aquilo que é hoje: cercada de crenças, tabus e desinformação. Ela encontra-se na base da vergonha, dos segredos e das conversas falaciosas sobre o tema. Quanto mais uma cultura reprime a sexualidade, mais incorporamos um juízo negativo sobre os nossos desejos e ímpetos, atrapalhando fortemente a vivência da sexualidade. Uma pesquisa que comparou duas sociedades com comportamentos familiares distintos diante da sexualidade de adolescentes, comprovou que naquela que há comunicação aberta e aulas de educação sexual nas escolas, os jovens tem 4x menos probabilidade de engravidar e 2x menos possibilidade de abortar do que na outra, marcada pela educação baseada na proibição.

A vergonha sexual perpassa desde as questões de identidade de gênero até a orientação sexual. Se vivemos em uma cultura que coloca a heterossexualidade como norma, pessoas com desejo sexual por outras do mesmo sexo crescem mergulhadas na vergonha, impossibilitadas de viverem a expressão do seu afeto. Por falta de apoio da família, amigos e entorno social, são mais vulneráveis a problemas de saúde mental.

A vergonha também atravessa a percepção corporal. Quando uma cultura reforça somente um padrão estético, coloca todos inseguros quanto a sua apresentação. Diante do outro a avaliação sobre suas genitálias, pesos e medidas faz com que muitos não se sintam à vontade para o encontro sexual, o que interfere significativamente na capacidade de obtenção de prazer. O Brasil, por exemplo, é líder em cirurgias íntimas femininas, demonstrando como as mulheres desconhecem a diversidade de formato das vulvas e negam o próprio genital. Padrões estéticos de filmes pornográficos, nesse sentido, fazem um desserviço atroz.

Práticas sexuais ainda envoltas em crenças e tabus, como o sexo anal, ou desejos mais específicos, como parafilias – conhecidas vulgarmente como fetiches – por não serem abertamente discutidas, podem provocar também, aos seus praticantes, um sentido de marginalidade. 

A vergonha também impede que casais se ajustem sexualmente; muitas pessoas não comunicam como gostam de ser tocadas e o que precisam para se excitarem e chegar ao orgasmo. O não dito por medo do julgamento, é um dos fatores que contribuem para o alto índice de queixas sexuais, que vão desde dor durante a relação sexual até afastamento sexual entre o casal.

É fundamental que a sexualidade seja compreendida como uma manifestação da natureza humana, e que a iniciativa privada colabore com projetos de educação sexual. A Organização Mundial da saúde (OMS) entende a sexualidade como um dos pilares para a qualidade de vida, e a saúde sexual como um direito de todos.

Façamos a nossa parte!

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